Tecnologia e humanidade

Aqui fica o exemplo de um ensaio (de apenas uma página A4) que merece ser lido e discutido, baseado no filme Blade Runner (Ridley Scott), da autoria da aluna Anamaria Pop, do 11º ano. Agradecemos à Anamaria a autorização para publicar aqui o seu ensaio. 


Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes
Filosofia, 11ºAno, 
Maio de 2014
Anamaria Mihaela Pop, Turma M, nº3

Porque é que Roy salva a vida do seu caçador, Deckard?

O filme Blade Runner mostra uma visão futurista do mundo: no ano de 2019 outros planetas da via láctea já estão colonizados por humanos e por andróides geneticamente produzidos, que são usados nessas colónias como substitutos dos seres humanos para a realização de tarefas e trabalhos considerados demasiado perigosos. Os andróides, chamados de “replicantes”, são fisicamente semelhantes aos humanos; no entanto, têm uma força, resistência e agilidade muito superiores e, portanto, são vistos como uma ameaça na Terra. Alguns replicantes são criados com um prazo de vida de apenas quatro anos, pois verificou-se que, ao fim de um certo tempo, estes desenvolvem emoções semelhantes às humanas e podem revoltar-se pela sua condição.
O filme centra-se na perseguição por Deckard, um Blade Runner (caçador de replicantes), a quatro replicantes que regressam à Terra com o intuito de aumentar o seu prazo de vida. Roy, considerado o chefe desse grupo de replicantes, é o único que não é assassinado por Deckard e acaba mesmo por inverter os papéis de perseguidor e perseguido na sequência do assassínio da sua amada Pris por Deckard. Tal revolta por parte de Roy mostra que talvez os replicantes não sejam tão diferentes dos humanos quanto isso e que talvez tenham uma habilidade emocional idêntica aos mesmos. Na cena final, Roy tem a oportunidade de pôr fim à vida do seu inimigo, mas decide não fazê-lo, poupando-lhe a vida. Porque será que Roy tem esta atitude?
 Do meu ponto de vista, Roy valoriza a vida de tal forma que, como referido anteriormente, pretendia prolongá-la. Portanto, apercebe-se de que não é éticamente correto tirar a alguém o direito a algo que quer desesperadamente para si próprio. É, também, neste momento que ele, pela primeira vez tem o poder de controlar a vida e a morte. Roy pode controlar algo de outrem que nunca poderia de si próprio: a vida ou a morte, pois a sua vida tinha um curto prazo de validade e a morte era certa. Ele escolhe para Deckard a vida, tal como escolheria para si, se tivesse esse controlo, o que demonstra por parte de Roy não só um sentido de compaixão pelo outro, mas de amor próprio. Ele salva Deckard como se se salvasse a si próprio, um sentimento tipicamente humano. Outra razão que, também, segundo o meu raciocino, o pode ter levado a poupar a vida de Deckard tem exactamente a ver com o facto de a vida de Roy ter um prazo extremamente curto, percebendo o valor da vida melhor do que ninguém e levando-o, assim, a valorizar a vida do seu próprio inimigo, considerando-a tão importante quanto a sua, se tivesse a oportunidade de ser salvo. Ao proceder desta forma, Roy mostra ser mais humano que os humanos, segundo a definição dos mesmos, o que me leva a colocar uma questão pertinente: O que é, afinal, ser-se humano? Ao longo do filme podemos observar replicantes a mostrar mais compaixão uns para com os outros do que os humanos entre si. Parece que, a determinada altura, os papéis se invertem (em termos de emoções e moralidade) e que os humanos são os replicantes e vice-versa. Pergunto-me, portanto: Será o Ser Humano tão pobre moralmente ao ponto de as suas próprias criações serem possuidoras de um nível de compaixão superior?

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