França ultramarina

O professor Eurico Carvalho chamou-nos gentilmente à atenção para os exercícios 1 e 2 da página 14 do 50LF10, nos quais testamos o domínio dos conceitos de condição necessária e condição suficiente: num caso, perguntamos se ser francês é condição suficiente para ser europeu, e no outro se ser francês é condição necessária para ser europeu. Quando fizemos o exercício estávamos a presumir que a França tinha abandonado, como Portugal, todos os seus territórios ultramarinos (para usar a expressão colonialista que se usava em Portugal antes da liberdade nos ter chegado nas pétalas dos cravos de Abril); acontece que isso é falso, e a França tem ainda hoje vários territórios ultramarinos, como a Guiana Francesa, no continente sul-americano, mas também a Polinésia Francesa e a Nova Caledónia, perto da Austrália, entre outros territórios franceses.

Dada esta complicação política, é curioso pensar se é ou não verdadeiro que ser francês é condição suficiente para ser europeu. Como os franceses dos territórios ultramarinos votam para o parlamento francês, também votam para o parlamento europeu. Assim, se consideramos que votar para o parlamento europeu é uma condição suficiente para ser europeu, essas pessoas são realmente europeias, ainda que sejam, por exemplo, geograficamente sul-americanas. O que isto significa é que temos uma incoincidência entre os conceitos geográfico e político de europeu. Geograficamente, só é europeu quem nasceu no continente europeu, ou nas suas ilhas; politicamente, contudo, há europeus que são geograficamente sul-americanos.

Em termos agora práticos, os professores têm dois tipos de opções à sua disposição. A primeira é deixar o exercício tal como está e avaliar apenas o domínio dos conceitos de condição necessária e suficiente, mesmo que o aluno pressuponha informação política falsa. Assim, por exemplo, um aluno que escreva o seguinte tem nota máxima porque mostra dominar o conceito, apesar de se basear talvez em informação empírica errada: “Ser francês é uma condição suficiente para ser europeu porque todos os franceses são europeus; mas não é uma condição necessária porque há europeus que não são franceses”.

A segunda opção é mudar o exercício para “ser alemão”: apesar da sua triste história, os alemães, ao contrário dos franceses, abandonaram o colonialismo.

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