Janelas para a filosofia

O livro Janelas Para a Filosofia, dos autores deste blogue, começa hoje a ser distribuído pelas livrarias de todo o país e já pode ser encomendado na página da Gradiva (com desconto e portes grátis). Deixamos abaixo um pequeno excerto, para se poder ficar com uma ideia.


As éticas deontológicas são muito rígidas; as consequencialistas são um pouco mais flexíveis. Mas em ambos os casos temos teorias concebidas em termos quase científicos: como se fossem teorias da geometria ou da física. Estas teorias são generalistas, no sentido em que, em cada caso particular, a mera aplicação dos seus princípios gerais nos dá uma resposta adequada. Por exemplo, para saber qual é a área de um dado terreno, aplicamos os princípios gerais da trigonometria; e ficaríamos muito surpreendidos se estes princípios não dessem resultados inteiramente adequados. Todavia, isso é exactamente que parece acontecer no caso das teorias deontologistas e consequencialistas: ao aplicá-las a casos particulares, como os casos dos comboios desgovernados, os resultados parecem inadequados.
   A ética das virtudes não é generalista. Ao contrário do deontologista ou do consequencialista, Aristóteles pensa que não há critérios substanciais adequados da acção correcta, como “age de acordo com o imperativo categórico” ou “promove a maior felicidade do maior número”. Claro que, do ponto de vista de Aristóteles, cultivar as virtudes é o mais importante da vida ética; mas “age de maneira virtuosa” é um critério vazio porque não nos diz ainda como agir exactamente em cada caso particular. Porém, se não temos critérios da acção correcta, como vamos descobrir o que fazer em cada caso?
    A resposta é que temos de ter reflectido previamente sobre virtudes paradigmáticas, como a coragem ou a lealdade; então, perante uma situação da vida, tentamos descobrir o que é virtuoso fazer naquele caso particular. Uma vez que, nessa reflexão prévia, vimos que a acção virtuosa se encontra, em vários casos, num meio-termo entre um excesso e um defeito (coragem em excesso é o vício da temeridade, por exemplo, e a falta de coragem é o vício da cobardia), usamos essa ideia como guia. Mas é um mero guia: a doutrina aristotélica do meio-termo não deve ser encarada como um critério da acção correcta, como se fosse um imperativo categórico ou o princípio consequencialista de promover a maior felicidade para o maior número. Até porque, se o fosse, produziria resultados obviamente falsos: entre assaltar um banco de maneira mais arriscada sem matar pessoas e assaltá-lo de maneira menos arriscada matando dez pessoas, o meio-termo é assaltá-lo matando apenas cinco; mas é claro que isto não é uma razão para pensar que esta é a coisa virtuosa a fazer.
     A ideia de Aristóteles é que temos, em cada caso, de pesar cuidadosamente os factores relevantes, procurando não cair em excessos; mas não há um princípio geral, como na deontologia ou no consequencialismo, para descobrir qual é a acção virtuosa. Perante uma pessoa carenciada, por exemplo, pode ser virtuoso ajudá-la, dando-lhe mil euros para ela resolver as suas dificuldades; perante outra, que não o merece, poderá ser vicioso fazer tal coisa. Tudo depende de vários factores moralmente relevantes, que variam sempre tanto de situação para situação que não podem ser adequadamente integrados numa teoria geral da acção correcta. Esta surge assim não como a aplicação automática de um princípio teórico geral, mas em resultado da decisão de um agente virtuoso, que reflectiu cuidadosamente na questão e tomou uma decisão de acordo com a razão.

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