Crença racional


 
Regressemos à discussão da crença. As crenças, como dissemos, podem ser avaliadas como verdadeiras ou falsas. Mas podem ainda ser avaliadas de acordo com uma segunda dimensão. Se a Maria nos diz que Júpiter tem dezasseis luas, queremos saber se está justificada em acreditar nisto, ou se é apenas um truque que ela retirou de um chapéu. Terá ela razões que tornem racional a sua crença nisso?  
O que queremos dizer com uma razão para acreditar? Normalmente, temos em mente uma prova para a crença, uma consideração ou observação que aumenta a plausibilidade da verdade da crença. Assim, poderíamos imaginar que a Maria apontou o seu poderoso telescópio para Júpiter e contou as suas várias luas. A estas razões, chamemos razões epistémicas.  
Alguns filósofos pensaram que pode também haver razões não epistémicas para acreditar numa dada proposição. Muitas conversões religiosas foram conseguidas com uma arma apontada à cabeça: «Acredita nisto, senão...» Podemos pensar que uma pessoa que olha para o cano de uma arma tem razão para adoptar qualquer crença que lhe seja proposta — uma razão pragmática e não epistémica: as considerações avançadas não apontam para a verdade da crença, mas apenas para as vantagens pragmáticas de aceitar essa crença (não levar um tiro na cabeça).  
Esta distinção — entre razões epistémicas e razões pragmáticas para acreditar — é ilustrada pelo famoso argumento de Blaise Pascal para afirmar que todos temos razão para acreditar em Deus. O argumento de Pascal é que as consequências de não acreditar em Deus se este existir (inferno e condenação eterna) são muito piores do que as consequências de acreditar Nele se não existir (uma certa remissão do pecado e contrição). Assim, é melhor acreditar do que não acreditar. Se o argumento funcionasse, estabeleceria, quando muito, que temos uma razão pragmática para acreditar em Deus, mas não uma razão epistémica, pois o argumento nada faz para aumentar a plausibilidade da existência do Todo‑Poderoso. Em contrapartida, habitualmente pensamos que as observações astronómicas de Júpiter nos fornecem razões epistémicas, e não pragmáticas, para acreditarmos que esse planeta tem um certo número de luas.  
Dissemos que para que a Maria fosse racional ao acreditar que Júpiter tem dezasseis luas teria de ter boas razões a favor dessa crença. No entanto, estaremos aqui a falar de razões epistémicas ou será que outros tipos de razões entram também na racionalidade, como as pragmáticas?  
Regressaremos a esta questão. Como veremos, uma das concepções que queremos aprofundar é a ideia de que a racionalidade tem sempre a ver, em parte, com razões não epistémicas de uma pessoa. 
Seja como for que se construa a racionalidade, vemos que as razões da crença podem ser falíveis: podemos ter boas razões para acreditar numa coisa falsa. As provas que os gregos pré‑aristotélicos tinham levavam a que fosse racional para eles acreditarem que a Terra era plana, ainda que, como agora sabemos, seja redonda.  
Tal como também mostra este exemplo, as razões são prescritíveis: podemos ter boas razões para acreditar numa coisa numa certa altura e, depois, como resultado de mais informações, deixar de ter boas razões para acreditar nessa mesma proposição noutra altura. Os gregos pré‑aristotélicos acreditavam justificadamente que a Terra era plana; nós acreditamos justificadamente que é redonda.  
Suponhamos, então, que, tal como as observações visuais da Terra a partir do espaço parecem decisivamente confirmar, o planeta em que vivemos é, de facto, redondo. Assim, a nossa crença de que a Terra é redonda é justificada e verdadeira; segundo a habitual e amplamente aceite definição platónica de conhecimento, a nossa crença conta, portanto, como conhecimento.  
Conhecimento:  
Um sujeito S sabe que p se e só se: 
  1. S acreditar que p;  
             2.  S estiver justificado em acreditar que p; 
           
             3.  p for verdadeiro. 

Os nossos antepassados pensavam que sabiam que a Terra era plana, mas estavam errados. Ainda que a crença deles acerca da Terra fosse justificada, era falsa. Para que uma crença seja considerada conhecimento tem, não só de ser justificada, mas também verdadeira. 
Paul Boghossian, O Medo do Conhecimento (Gradiva), pp. 25-27

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