Moral kantiana: uma precisão


A Lição 18 do manual do 10.º ano, intitulada "Kant e a vontade boa" (pp. 76-78) apresenta a distinção kantiana entre as ações que são contrárias ao dever e as ações que estão de acordo com o dever, sendo que estas se dividem, por sua vez, entre as que são meramente conformes ao dever e as que são realizadas por dever (ver esquema da p. 78). 

Como aí se explica, só as ações que são realizadas por dever têm valor moral. Mas daí não se segue que aquelas que são meramente conformes ao dever sejam moralmente incorretas (ou imorais), pois as ações que não são moralmente corretas podem também, de acordo com Kant, não ser moralmente incorretas. 

Apesar de isto estar devidamente apresentado nessa lição e de ser consistente com o que se diz nas lições seguintes, há na p. 77 uma imprecisão claramente infeliz e enganadora, que deve ser corrigida. Aí se diz, a propósito do conhecido exemplo kantiano do comerciante, que ações como a de não enganar os clientes por medo de ser apanhado são moralmente reprováveis. O que se devia ter dito é que não têm valor moral, ou que não são moralmente corretas (como se diz a seguir) e não que são moralmente reprováveis.

Fomos alertados para esta infeliz imprecisão pelo colega Carlos Pires (professor da E.S. Laura Ayres, da Quarteira), a quem agradecemos o muito justificado reparo.

Comentários

  1. Aires fica por dizer então que valor tem essas acções...

    Ismael Carvalho

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  2. Ismael, a questão aqui não é que valor têm, mas apenas se são moralmente valiosas (corretas) ou não. A resposta é que não: as ações meramente conformes ao dever não são moralmente corretas, mas também não são imorais.

    Em termos morais, suponho que nada mais haja para dizer quanto ao seu valor.

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  3. Aires então podemos dizer que são morais?

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  4. Bom, em termos genéricos, mesmo quando falamos de ações imorais, estamos a fazer uma avaliação moral.

    Mas o que estava aqui em causa era algo mais preciso, a saber, o que faz uma dada ação ser moralmente meritória (ter valor moral). Ora, a ação do comerciante que não engana os clientes por ter receio de ser apanhado e assim perder os clientes não é moralmente meritória, pois a intenção do comerciante ao fazer isso não é cumprir o dever (embora a sua ação também não seja contrária ao dever). Em suma, a filosofia moral katiana distingue entre ações realizadas por dever, ações meramente conformes ao dever e ações contrárias ao dever. Só as primeiras são moralmente dignas de mérito, isto é, só essas têm valor moral. Ou dizendo ainda de outra maneira: só essas podem ser corretamente classificadas como moralmente boas.

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  5. Aires a questão que fica em aberto, apesar de sabermos as distinções entre agir por dever e conformes ao dever é saber se podemos considerar estas últimas como acções morais. A questão da intencionalidade faz ou não faz a diferença para considerar uma acção moral? Antes de ter mérito é necessário percebermos se falamos de acções morais ou não.

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  6. Ismael, se não disseres o que entendes por "ação moral", continuamos aqui às voltas falando de coisas diferentes.

    Se por ação moral entenderes algo como "ter valor moral" ou "ser moralmente meritória" ou ainda "ser moralmente boa", então as ações meramente conformes ao dever não são morais. Esta é a resposta para a questão que inicialmente estava em discussão.

    Mas se por "ação moral" entenderes "aquela que é objeto de avaliação moral", então não só as ações meramente conformes ao dever como até as contrárias ao dever são, nesse sentido, morais.

    Neste último sentido, as ações que não são morais são as que se encontram fora do âmbito da avaliação moral. Como, por exemplo, comer uma maçã ou dar um mergulho no mar. Mas não era disto que estávamos a falar, pois a questão filosoficamente mais interessante é a de saber como distinguir ações moralmente boas das que o não são.


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  7. Aires aquilo que está em causa não é tanto o que eu entendo por acção moral mas sim o Kant. A distinção de que falas no início fica mais clara se distinguirmos simplesmente entre acções morais e não morais, deste ponto de vista a acção do comerciante não é uma acção moral. Não sei se para o Kant a distinção não é apenas esta. E portanto não se coloca a "imoralidade de uma acção" ; a acção é moral ou não é, simplesmente.

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  8. Ismael, poderás confirmar na Fundamentação da Metafísica dos Costumes que Kant fala sempre de ações com valor moral e não simplesmente de ações morais. Em suma, para Kant a distinção relevante é que ações têm valor moral e não se uma ação é moral ou não é moral (a não ser que interpretes isso como ter ou não ter valor moral). Outra coisa diferente é falar das questões morais em geral, caso em que reconhecer que uma dada ação não tem valor moral é, ainda assim, uma questão moral.

    Portanto, e mais uma vez, a questão moral relevante para Kant é a do valor moral das nossas ações. Penso eu de que...

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  9. Está certo. De facto interpreto a questão distinguindo entre acção moral e não moral, mas posso estar enganado, penso eu de que também. Obrigado.

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